Esta é a estatística mais estranha do mercado de cinema no momento: o IMAX opera menos de 1% das telas de cinema do mundo, mas no fim de semana de estreia de um grande filme costuma capturar mais de 20% da bilheteria. Para um sucesso de bilheteria como Dune: Part Two, o IMAX arrecadou 22,7% de toda a receita doméstica de estreia com apenas 809 telas em todo o mundo.
Isso não é um erro de arredondamento. É o sinal mais claro de uma mudança estrutural na forma como as pessoas assistem a filmes — uma mudança que a COVID acelerou e o streaming tornou permanente. O meio do mercado de cinema esvaziou-se. O que restou é uma configuração de extremos: o consumo cotidiano migrou para o sofá, e a ida ao cinema se restringiu a um número menor de eventos imperdíveis e grandiosos. Nessas noites, o público não quer apenas um ingresso. Quer a tela maior, mais barulhenta e mais cara do prédio.
Uma fatia minúscula das telas, uma fatia desproporcional do dinheiro
Comece pela concentração, porque os números são realmente desproporcionais.
- O IMAX representa menos de 1% das telas globais, mas captou mais de 50% de toda a receita de bilheteria em formato premium de grande porte (PLF) no início de 2025.
- Em 2025, o IMAX entregou um recorde de 3,8% de toda a bilheteria mundial — alta de 70 pontos-base em relação ao ano anterior — com US$ 1,28 bilhão em arrecadação no formato IMAX, um salto de 40% em relação aos US$ 920 milhões de 2024.
- Em um único trimestre recente, o IMAX gerou 20% ou mais da bilheteria doméstica de fim de semana de estreia para três títulos diferentes.
Ampliando o foco do IMAX para todos os formatos premium — IMAX, Dolby Cinema e as marcas próprias das grandes redes, como o Prime da AMC e o XD da Cinemark —, o mesmo padrão se repete em maior escala. As telas premium responderam por 15,6% da bilheteria norte-americana em 2024, ante 14,5% em 2023 e apenas 10,3% em 2019, antes da pandemia. Em 2025, mais de 16% de todos os ingressos domésticos vendidos foram para sessões em formato premium de grande porte, contra 13,8% dois anos antes. Especificamente para os grandes lançamentos (“tentpoles”), os formatos premium podem responder por até metade da receita do fim de semana de estreia.
A economia amplia o efeito. Em 2025, o ingresso médio de cinema nos EUA custava cerca de US$ 13,29, enquanto um ingresso em formato premium custava aproximadamente US$ 17,65 — um adicional de um terço ou mais. Assim, uma pequena fatia dos assentos se transforma em uma fatia muito maior do dinheiro. Em uma rede regional, a Phoenix Theatres, as salas premium representam 29% das telas, mas respondem por 40% do público; em um sábado de pico de abril de 2025, a AMC registrou 33% de sua presença em salas premium.
Menos telas. Preços mais altos. Demanda desproporcional. É assim que 1% vira 20%.
O que realmente mudou: o meio desapareceu
Nada disso importaria se o público ainda fosse ao cinema como ia em 2019. Não vai mais.
A parcela de adultos americanos que vai ao cinema pelo menos uma vez por mês despencou de cerca de 39% em 2019 para aproximadamente 17% em 2025. A ida casual e habitual — uma terça-feira qualquer, uma comédia de orçamento médio, uma noite de “vamos só ver o que está passando” — praticamente evaporou e não voltou. Desde a pandemia, cerca de 5.700 telas fecharam nos Estados Unidos, e a bilheteria total ainda está abaixo do pico pré-COVID.
Esse hábito casual não desapareceu no ar. Ele se mudou para a sala de estar. O streaming não é mais a alternativa ao cinema — é o comportamento padrão do consumidor. A antiga janela de exibição de 90 dias, antes sagrada, é hoje praticamente coisa do passado. Os estúdios agora direcionam os filmes para o canal que mais lhes convém: um título de orçamento médio como Sinners pode estrear simultaneamente em um serviço de streaming para testar o apetite do público, enquanto um possível grande sucesso recebe um lançamento voltado primeiro para o cinema, pensado em torno das telas premium.
O resultado é uma bifurcação que o setor já vinha rondando havia anos e que a COVID finalmente forçou. Como colocou uma análise amplamente compartilhada, a distribuição nos cinemas se tornou um “canal só para eventos” — extraordinariamente poderoso para um punhado de megafilmes, e cada vez mais ineficiente para tudo o mais. O filme original de orçamento médio — aquele drama ou comédia adulta de US$ 30 a 60 milhões que costumava ser o tecido conjuntivo do calendário de lançamentos — é a vítima mais evidente. Alguns poucos conseguem se destacar nos cinemas a cada ano, mas, para a maioria, o streaming agora é o lar natural.
Por que os sobreviventes apostam no premium
Quando ir ao cinema deixa de ser rotina e se torna uma ocasião especial, a lógica da tela premium assume o controle.
Se você só vai ao cinema algumas vezes por ano — e escolhe o cinema justamente porque ele oferece algo que sua excelente configuração doméstica não consegue —, então o diferencial é a escala. Um quadro IMAX de 70mm, uma tela do tamanho de uma parede, poltronas que vibram com os graves do Dolby Atmos: são coisas que uma assinatura da Netflix e uma boa TV não conseguem replicar. O formato premium já não é um upsell da experiência; para o filme-evento, ele cada vez mais é a experiência.
Os cineastas notaram, assim como o pessoal de marketing. Diretores como Christopher Nolan e Denis Villeneuve agora filmam com câmeras IMAX e tratam o formato como a maneira pretendida de assistir ao seu trabalho, e os estúdios promovem os filmes como “Filmado para IMAX” — transformando o formato em parte do produto, e não apenas em um meio de exibição. Isso, por sua vez, alimenta a escassez que move todo o ciclo: existe um número limitado de salas IMAX e premium, as grandes estreias as esgotam primeiro, e as sessões premium esgotadas geram exatamente aquela urgência de “você precisava estar lá” que tira as pessoas do sofá, para começo de conversa.
Os exibidores responderam com uma corrida armamentista. O IMAX continua fechando acordos de novas construções e atualizações; a Dolby Cinema se expandiu; e as grandes redes estão investindo pesado em suas próprias marcas premium — às vezes competindo diretamente com o IMAX pelas mesmas salas. Quando o meio do seu negócio está encolhendo, você investe na parte que está crescendo.
As ressalvas que valem a pena manter
Algumas ressalvas honestas, porque essa configuração de extremos pode ser exagerada:
- “De 1% a 20%” é um fenômeno de fim de semana de estreia de grandes filmes, não uma média anual. O IMAX responde por cerca de 4% da bilheteria mundial anual, não 20% — o número de 20% ou mais se aplica às primeiras semanas dos grandes lançamentos feitos sob medida para o formato.
- O IMAX não é todos os formatos premium. O IMAX é o protagonista de ~1%; a categoria PLF mais ampla (uma fatia maior das telas) é o que responde por ~16% dos ingressos.
- O modelo depende de uma oferta de filmes-evento. Em um ano escasso de verdadeiros blockbusters para todos os públicos, o segmento premium ainda tem desempenho superior — mas todo o negócio de cinema sente o impacto. A estratégia concentra tanto o risco quanto a recompensa.
A conclusão
A pandemia não matou o cinema; ela o reorganizou. O streaming absorveu o consumo cotidiano que antes enchia as poltronas no meio da semana, e o que restou migrou para um número menor de eventos genúínos — assistidos, cada vez mais, nas maiores e mais caras telas disponíveis. É por isso que um formato presente em menos de 1% das telas do mundo pode definir o fim de semana de estreia dos maiores filmes do ano, e por isso a frase que os espectadores agora dizem sem pensar duas vezes não é “vamos ver um filme”, mas sim “vamos ver no IMAX”.
Traduzido do original em inglês.



